O Estranho









Quando menino
desenhei caminhos
no vento:

viajei
em sonhos
           e miragens


Oh! com que espanto
vi crescer do espelho
o homem que invadiu
meu espaço encantado.

Ideia






Vem-me, às vezes,
a ideia
de que sou
antigo,


de que já existi
antes de mim
que estou aqui.


Sei a vida
e seu sabor
mas SER,
não sei se sou.


Vem-me, enfim,
a ideia de ser eu
apenas uma ideia
de mim.

Identidade



Eu sei de alguém
que é o que tem:


ele é seus carros
seus apartamentos
suas apólices
seus dólares
seus investimentos.


Mas ele é sobretudo
de suas fazendas:


ego fundo e ermo
é de terra, muita terra,
que ele precisa mesmo


para preencher-se. 

Cavalos



Cavalos selvagens
galopam no ar
de frias paragens:

a brida solta
venta ao luar,

ressoa nos astros
o eco dos cascos,

priscam seus halos
os terríveis cavalos.

Alento

O tempo também
tem seus carinhos:
pinta de amarelo 
o par dos canarinhos.

Poeminha (para o Thiago, meu filho)





Eu sei que tu sonhas,
meu filho.

E no teu sonho
pasta um cavalinho branco.



E te aproximas
flutuando, flutuando.

Estás tão perto,
saltas para montá-lo:

- mas que cavalinho esperto!
                                  
 Teus olhinhos
 já abertos
 ainda campeiam
 um cavalinho branco

entre as nuvens do teto. 

Os Invertidos




De tão introvertido
ele não se via
no espelho.


O outro,
de tão extrovertido
não se via

do espelho.

O envelope


Dia de receber salário é especial, sagrado mesmo, na vida do trabalhador. Principalmente para uma professora, cujo mês de trabalho exigiu dedicação e sacrifícios que extrapolaram os limites da sala de aula e da escola, com a preparação e correção de trabalhos e provas. Não apenas por isso, mas também por que, para uma mulher que talvez contribua com a maior parte para as despesas da casa ou, quem sabe, seja sozinha para manter-se a si mesma e aos filhos, o salário represente uma necessidade ainda mais premente. E a espera ansiosa por esse dia escondido atrás dos outros no calendário acaba tornando mais longo e cansativo o mês.
Lá estava, na longa fila do Banco Regional de Brasília – BRB, no Setor Comercial Sul, num desses dias 30 de um mês qualquer de um ano já longínquo (talvez fosse 1970 ou 72, não importa), uma anônima professora para receber o pagamento que a Fundação Educacional depositara em sua conta. Que planos fazia, enquanto a fila se desfilava? Que compromissos haveria de saldar com o dinheiro que daí a pouco receberia? Talvez pagar o aluguel, a compra do supermercado? Será que se daria ao luxo de ir ao Conjunto Nacional, único shopping da cidade, para comprar um par de sapatos, um vestido novo? Quem sabe um presente para o filho, ou para o marido, ou para o namorado? Nada se sabe da personagem, se era casada ou solteira, separada ou viúva, se tinha filhos, se buscava amores. Sabe-se que era uma trabalhadora, uma trabalhadora especial, que ganhava a vida ensinando vidas, que para isso Deus fez as professoras. E que estava ali para colher o merecido fruto do seu labor.
Mas, já se disse, a fila andava lenta, como todas as filas de bancos. Aliás, a única coisa que parece resistir à pressa e à eficiência do mundo moderno são os serviços bancários. Mesmo com os aparatos eletrônicos de que são servidos, os caixas parecem dormitar, obrigando os clientes a seguir as procissões sonolentas ao encontro do santo padroeiro do sistema monetário. Vamos logo ao que interessa, senão o leitor sai da fila, digo do texto, e me deixa falando sozinho, por falta do principal.
A professora notou que estava sendo ostensivamente olhada por um rapaz que não demonstrava pressa nem ansiedade, mesmo porque não estava na fila. Era um sujeito bem apessoado, vestido com elegante simplicidade. Nada denunciava nele intenções suspeitas. Ela certamente era bonita e atraente e a situação sugeria mais uma paquera, naqueles idos relativamente pacíficos e inocentes, em que assaltos, sequestros, estupros, eram raros na ainda quase provinciana Brasília.
A lisonjeada professora, pois era assim que devia se sentir, alvo de atenção sedutora, chegou enfim ao caixa, sacou o dinheiro, que colocou num envelope e guardou na bolsa. No entanto, do encanto fez o espanto... e o engano. Logo que saiu do banco,  ela foi subitamente abordada pelo dito sujeito que, com cuidadosos disfarces, encostou-lhe uma arma e a conduziu para um carro estacionado bem próximo. Poucos minutos depois, já na Avenida W3, o maldito parou o carro e ordenou-lhe que colocasse o envelope sobre o painel. A amedrontada professora não hesitou em cumprir a ordem: enfiou a mão trêmula e apressada na bolsa e retirou, sem olhar, um envelope bem recheado. Liberada, saltou do carro e em desespero recorreu a um policial que surgiu feito um anjo fardado do fundo oco e azul  tarde:
- Fui assaltada, levaram todo o meu salário do mês – denunciava em prantos a infeliz professora. O soldado, ou anjo, antes de conduzi-la à delegacia mais próxima, para registrar queixa, achou conveniente verificar a bolsa. Pois lá estava o envelope com o dinheiro, endereçado à surpresa de ambos e ao final cômico-feliz desta história, que é pura realidade, segundo me contaram.
O assaltante é que deve ter tido uma lição inesperada e desconcertante, quando abriu o envelope deixado em seu (seu?) carro e encontrou ali (adivinhem o quê?) um envelope contendo um absorvente íntimo, o, então, conhecido por modess.

P.S. O policial dispensou as explicações, pois entendeu a situação da prevenida professora e o engano, desta vez, favorável a ela.

Manhã





Manhã,
palavra que acende os olhos
e ilumina os quartos. 

Manhã,
palavra que acorda os sapatos
e desata os passos.

Manhã,
palavra que abre a porta
para o tempo sair de casa.

Manhã,
palavra povoada de pássaros. 

Noite

Pelas encostas vermelhas
A noite vem subindo a montanha,
carregando nos ombros 
o seu balaio de estrelas.



Este poema, que faz parte de um grupo de 24 poemas inéditos sobre o tema "A Noite" foi publicado na Antologia  de poesia brasileira para o público juvenil intitulada "Rumo à Estação Poesia",  organização de Ronald Claver, Editora Dimensão, Belo Horizonte, 2001. Fazem parte da referida antologia, entre outros, Manoel de Barros, Olga Savary, Adélia Prado, Mário Quintana, Leo Cunha, Elias José.
























Trenzinho do Sonho




           Foi no barco do sono de onde eu pescava sozinho, nas águas clarinhas dum remanso de sonho, que desaguava no lago frio da meia manhã – que, de repente, um menino saltou de mim na minha frente e perguntou se eu o conhecia. Ora, pois, como haveria? Pois eu vou te mostrar quem sou, quem somos. Vem por mim, acompanha-me.

           Mas eu estava cego, precisava de guia?

           O pequeno tomou minha mão na sua e foi me levando para um ontem, um anteontem, um outro distante dia. E foi me mostrando uma paisagem que ia se desenrolando do futuro para o passado, reordenando os fatos nos fatos no presente, e tudo passava rapidamente visto da janela de um trenzinho de brinquedo, que ia disparado feito um calango com medo de gente.
          
Era um filme a que eu assistia de dentro do próprio filme, pois eu via o trem do tempo correndo ao mesmo tempo em que eu estava naquela viagem inventada, conduzida pela mão do menino. E passamos serras, montes, vales, horizontes, rios, riachos, pontes, postes, pastos, pássaros, boi-zinhos, bicas, sombras de pés-de-manga, e apitamos quando entramos no quintal da infância.
          
Nas cercanias, cavalinhos brancos, macios, de plumas, de neve, pastavam relva e orvalho e flutuavam em pequenos galopes, sob leves flocos de nuvens rosa desenhadas nos campos limpos da manhã.
           Os passarinhos debulhavam no ar a matinal cantoria dos quintais. Um ventinho manso e frio, vindo das bandas do rio, brincava solto nos galhos. O ar estava salpicado de folhas, flores, cheiros e notas musicais. Um aroma quente de café subia do mastro negro da chaminé. Só depois é que se enxerga a casinha branca que navega suspensa no silêncio da neblina.

           O sol, laranja madura dependurada no alto da serra.

  As lembranças melhores faziam ninho na memória. E às vezes soltavam suas imagenzinhas dentro dos olhos. Era preciso um tempinho para acostumar os olhos ao olhar. Tudo era limpo e claro na tela iluminada do sonho. Mas onde andava o menino que me trouxe para o tempo encantado? Havia fugido de mim ou em mim se refugiado?
          
Fui me aproximando da casinha caiada de brisa. Uma janela ainda bocejava.

       Ô de casa!

Ninguém responde. A porta está escorada. Era uma casa simples e bem-arrumada. Havia em tudo um brilho cheirando a branco, um asseio materno, desses que lavam e perpassam a alma das coisas.

         Onde estavam os convivas do meu sonho: o pai, sempre alegre, assobiante, estava no curral, ordenhando as vacas, ou teria ido campear além? A mãe, tão amável e bem disposta, fora à bica encher o pote de água nova? E os irmãos, tantos, foram para a escola? Ou ficaram crescidos e foram embora?

Por fim, num quarto pequeno, dorme só o menino. Ressona leve e sereno, em seu soninho quente, de palha.

O meu antigo menino, que me trouxe a mim, pequeno.

Cuidado para não acorda-lo. Ele pode não existir além do sonho.      

   (Conto retirado do livro Amor de Menino, Editora Dimensão, Belo Horizonte, 1997.)

Somos Somas





Somos somáticos:
o  soma,
                     a soma.

Em suma
somos o  que somamos
de bens
para o bem de nosso soma.

E para alcançar mais rápido
o resultado do que buscamos ter
multiplicamos
(multiplicação é soma acelerada).

Mas quando desossamos nosso ser,
quando nos des-somamos
o  que temos?

Seremos
                  serenos.