Estranho Eu






O eu que me acompanha
é o meu segurança.

Ele cuida da minha aparência
dos meus compromissos
das minhas finanças;

ele me dita
os passos e o ritmo
da dança
no salão social.

Mas, mesmo assim,
olho com desconfiança
esse eu – no íntimo –
estranho de mim.

Palavras








Palavras

palavrões

palavrinhas,


suas putas!


Donas da noite:


minhas rainhas!

A formiga



Uma formiga

passeia sobre a mesa

diante de mim

pequenina e indefesa

em busca de si,

ou só de alimento?



Tenho impulso de matá-la,

mas suspendo o dedo

a tempo...



Talvez o senhor da morte

faça comigo o mesmo

neste momento.

Birra






O menino
                   - birrento  -

queria porque queria
tirar a casca fria
                   do vento.


O Amigo








O menino,
                    brincando,

inventa o amigo
que precisa
e põe a mão de brisa
no ombro de sua sombra.





Peças





O poema
é jogo de montar
a esmo:


o leitor, co-autor,
tem de buscar as peças

em si mesmo.

Afinal




Morreu
um amigo meu.

Chegou sua hora, afinal;
a final.

Foi só isso:
quebrou-se um vida
no chão do tempo.

Mas, enfim,
a morte não é mesmo isso:

Deus quebrando
seus brinquedos de barro

para ver o que tem dentro?

FUGA


  
O menino fugiu-me
sem que eu visse
por onde:

foi atrás da estrela caída,
foi colher uma flor do campo
e se perdeu de mim
que andava tão longe?


Ou o menino
subiu pelo arco-íris
pensando que era ponte
entre mim e o horizonte?


Ou o menino
fugiu-me

com medo de ficar grande?