SUSTO






A volta à fazenda
que susto me deu:


meu filho, cuidado

que o boi brabo
te pega em mim!

Enquanto é Tempo






1:
Menino,
sai do sol;

menino,
sai da chuva;

menino,
sai do vento;

menino,
sai da rua;

menino,
vem pra dentro.

2:                               
                                  Menino,
cria asas:

vai ao vento
vai à noite,
vai ao sonho;

menino,
vai em frente,

sai de casa,
sai do sério,
inventa.

3:
Menino,
sai do homem
e brinca um pouco,

                            enquanto é tempo.

CLARA

Oh! Como em mim eu quisera
apanhar uvas na vinha
madura de tua espera
para o vinho de tua vinda.

E quando enfim tu viesses:
a boca ávida de sedes,
os olhos tenros de messes,
plenos de sonhos e flertes,

talvez nem mesmo eu soubesse
que a noite seria clara
em finos lençóis de lua.

Oh! a beleza se veste,
se penteia e se prepara
para se dar toda nua.

Caminhada

                       Para o Jorge Ferreira



Era madrugada 
e Deus dormia.

Havia lua no céu...


Ao longo da estrada
o silêncio chovia.

Pingava luz 
do seu chapéu. 

Outro

Querida, 
quem te amou
fui eu,

não sou eu.

A MARIA

Eu amaria a Maria
se a Maria me amoriasse
se a Maria me amariasse
se a Maria me amaciasse
com o fofo dos seus beijos
no duro da minha face
eu moraria com a Maria
se a Maria comigo se amasiasse
eu dormiria com a Maria
se a Maria me acordasse
eu me perderia com a Maria
se a Maria me achasse
eu pecaria com a Maria
se a Maria me perdoasse
Ah! eu comeria a Maria
se a Maria fosse alface.

A Vida



A vida
é o que não demora:

intento
que se inventa
e aflora
e esplende
e explode
uma gota

            de vinho
            e sonho
            na boca
            fulva da hora;


A vida
é o uivo o eco
a uva
o fluido lastro
que se amassa,

o úmido mosto
de que se destila
o ávido gosto do agora;

A vida é o que
se degusta e vigora
e de tanto gosto
se assusta e se devora. 

O Menino


O menino em mim
ainda se comemora:


há um gosto de vento 

nos ombros,

um cheiro de amoras 
no tempo,

um engenho de sonhos 
nos olhos. 


Uma varanda 
namora o silêncio 
das horas que caem.

O menino em mim 
ainda cresce 
e me leva embora. 




Trem


O amor
é um trem de desejos
um trem antigo,
antigo demais

que vem carregado
de sonhos, de sonhos... 
e de queijos


lá de Minas Gerais.

Imitando Quintana


Esses

que aí estão

a chover praga

no verão do meu ninho,

a esses

não lhes digo nada

eles desandarão,

eu andorinho.

Alienação


Eu até quis ser marxista,
mas desisti
quando percebi
que pela política
o mundo não tem conserto.

optei pela arte


e fui ao concerto de Mozart.

Filosofias  Chocantes


Quem nasceu primeiro:

Deus o ou tempo?

A galinha ou o ovo?


A noite choca o dia?

O velho choca o novo?


A pergunta choca a filosofia.


A resposta cisca o chão

e bota ovo à revelia.


O gavião come a cria.

O Gato Quântico


O gato quântico
solta-se do gato
romântico
que há em si...

desdobra-se
num salto elástico
e descobre-se
gato galáctico

e pensa decifrar
o enigmático

ser gático.

No Café


O menino triste
me olha
como se eu fosse
quase um santo.

Não me pede nada,
mas me dói tanto:

o  soco da fome
na boca do estômago!

Cena


Hoje eu vi um menino

catando numa lata de lixo
um pedaço duro de pão.

Meu olhar úmido

de lata meu coração

e a mão do pequeno

me revolvendo por dentro
me provocando a náusea
da fome e suas causas. 

Tive ímpeto da avançar 

sobre o serzinho rabugento
e arrancar-lhe dos dedos

aquele resto sujo da minha indignidade!


(poema publicado na antologia poética Pedras de Minas - Poemas Gerais, p.144)

Musa


Essa mulher

deitou-se no poema
com sua aura de deusa
e seu corpo de fêmea
e foi possuída
por palavras hirtas
e metáforas tensas.
E sujeitou-se à pena
a musa indefesa. 


(poema publicado na antologia poética Pedras de Minas - Poemas Gerais, p.230. Sofreu pequenas alterações nesta postagem)

Rebanho de Sonhos


Meu rebanho de sonhos
desce vales, sobe montanhas,
bebe brisas, come castanhas,
inventa sendas e sombras.

Meu rebanho de sonhos
feito brancas ovelhas
- lã de neve e luar -
lambe lumes de estrelas
e rumina tempo, devagar.


Meu rebanho de sonhos
segue aromas de amoras
e rumores de amores
nas redomas do sono.

Meu rebanho de sonhos
não sei para onde sai
nem sei de onde vem,
como nuvem se esvai

ao léu sob o véu do além.

(poema inédito em livro)

Criador


O poeta                

que sou

foi o menino

que fui

quem o criou.

(poema inédito em livro)

Confiança



A última casinha
no fim do arraial
abriga um velho sozinho

(os filhos se mudaram,
a mulher já lhe morreu).

Ele ficou ali
a olhar o caminho
para algum lugar.

Mas ainda cuida do tempo
que amadurece todo dia
em seu quintal

e sempre diz:
enquanto Deus for servido,
eu vou tocando a vida.

E diz isso confiante
com o olhar de quem sabe
para onde.

(poema inédito em livro)

Tecido


De que tecido 
é feito o silêncio?

A solidão é seu tear.

Mas é tão frágil,
tão tênue, tão ralo,

que até uma simples ideia
se põe a rasgá-lo.

(Poema retirado da antologia poética Pedras de Minas - Poemas Gerais, p. 217)