O Sino







1 -

O som sim
sim o som
do sino

fino bom
um hino
o som
do sino

ao me acordar
menino.


2 -

Quando anunciou
o longo sono
dos meus

mudou-se
o som do sino:

tão sem tom

tão   tão  tão.

A mão do Aleijadinho



A pedra é bruta
a mão é forte
mas a mão (de argila)
também é ágil
e sabe a arte
de moldar a pedra.

A mão, sendo pouca,
se instrumenta
a ferro:
     
Mão e formão
se associam
e gestam profetas

Os Profetas oram
um Ser’mão milenar…

Mão e formão
não cessam
não saciam
o Gênio, a gênesis.

Há outras formas latentes
em seu espaço íntimo:

Igrejas, Santos, Anjos
brotam do criador
dilacerado.

A carne é fraca
a pedra é forte
(e a carne
deve-se à terra
como a obra
se deve à mão.)

E essa Mão
não se deforma
não morre essa Mão
essa Mão escorre
pelo formão
nas formas.

Essa mão dura,
gêmea de sua arte,
enquanto durar a pedra.

O Sapo






O sapo
bom de papo
coaxava coagia:


Jilda,
minha jia,
eu te guio
te levo pro rio
te cubro do frio
te dou um inseto.


Jilda,
eu te completo.


O sapo
             
falava,
não agia;

Jilda só disse,
rouca de meiguice:

         sapo,
       eu te capo!

Punhais Íntimos




                                                        
Em quantas coisas

gastamos a vida:



na busca da riqueza,

na ambição desmedida,



na gula, na avareza,

nas vãs palavras, nas brigas,



nas vaidades, na incerteza,

nos ciúmes, nas intrigas.



Com quantos punhais íntimos

nos ferimos...



e somos tão fortes

que nem sentimos



as tantas pequenas mortes

em que vamos perdendo a vida.

BOIS AZUIS






Pela etérea palhada dos meus sonhos
os bois azuis repastam brisa e luar
e suas leves ancas tecem danças
entre as finas e brancas sedas do ar.

Os longos chifres luzem nos relumbres
do orvalho que se move devagar
e dos úmidos olhos vagam-lumes
para o alto, para o além, o algum lugar.

A efêmera manada então descansa
e nas palhas da noite se desmama
a rarefeita sede de sonhar.

Aos poucos a manhã azul se impõe
e encobre a aura, e luz, e espanta o sonho:
meus bois azuis refluem no luar.