Paredes (do livro Vento, cavalo do tempo, que será lançado brevemente)




O menino
tateia paredes do passado
em ruínas

como se ali
se escondessem
sob sombras e teias
uma família de rostos
ancestrais;

como se ali
restassem velhos dias
fechados nos cômodos
inclaros.

à espera de que
alguém viesse do futuro
para libertá-los.


Pano





São tecidos
de frio e luz
os fios azuis
da madrugada.


O Inesperado





Cheguei agora
para o inesperado
cheguei inesperado
para o agora.

O agora me esperou
inesperado
e o inesperado
me esperou até agora.

Agora que cheguei
o inesperado agorou-se
e o agora ficou desesperado.





Fábula (do livro Decantação, incluído na Antologia Pedras de Minas - Poemas Gerais




Menina,

teus olhos distantes e verdes
nas faces rubras...

que importa
se me fogem aos flertes


a raposa também
tem os olhos doces

de tanto namorar
as uvas.


Dádiva (do livro Voos Diversos)

Poeta,
por acaso
Deus te deu asas
e penas?

Sim,
me deu poemas.

Ambos/Both


Outro dia,
passando por mim,
eu quase me reconheci,
mas íamos ambos apressados,
um para o futuro,
o outro para o passado.


Tradução para o inglês por Vinícius Silveira de Castro Pereira (meu filho):

One day,
crossing with myself on a street
I almost recognized me
But we were both walking fast
One towards the future
And the other one to the past.


Palestra sobre Neruda

Estou postando o link da minha palestra sobre o poeta chileno Pablo Neruda, realizada na Associação Nacional de Escritores - ANE, no dia 3 de maio de 2018. Agradeço desde já aos que me honrarem com sua audiência.

Agora

Nasceu uma flor
no meu jardim

um beija-flor
veio beijá-la

e a poesia em mim,
calada, me fazendo sala.

Setas

O que sou
não cabe em mim.

Ser
é estar consigo
além de si,

é sair por aí
com os seus
pequenos eus,

desorientados
e sozinhos,

lendo as setas
dos caminhos.


Lumes e gumes

A palavra que soa
eclode no ar
seus lumes
ou seus gumes.

Se é boa
pode doar,

se é má
pode doer…

A palavra
dá seu dote
ou seu bote:

mel 
ou veneno
do ser.


COMUM DEUS




Como um deus que dorme
eu me aceito e me acato
e me deleito e me dilato
como um deus disforme.

Como um deus que acorda
eu me rejeito e me deflagro
e, contrafeito, me desacabo
como um deus que engorda.

Como um deus que nasce
eu me empreito e me lavro
e me ajeito e me consagro
como um deus sabe-se.

Como um deus que cresce
eu me enfeito e me propalo
e me igrejo e me ensalo
como um deus merece.

como um deus de porre
eu me ensejo e me ensaio
depois me pejo e me es-vaio
como um deus que morre.








Contraste







Hoje revi um amor
que há muito perdi

e que julgava morto

mas passou por mim
todo em si
sereno, absorto,

como se ainda fosse vivo,


como se eu estivesse morto.

Briga




Passei o dia
em desacordo
comigo.


Cansei-me
da briga:

vou dormir
acordado

comigo.

Visão



Passaste em minha porta
como uma lua soberana


e eu te segui

com meu olhar de varandas.

Cena




Hoje eu vi um menino
catando numa lata de lixo
um pedaço duro de pão.


Meu olhar úmido
de lata o meu coração


e a mão do pequeno
me revolvendo por dentro
me provocando a náusea
da fome e suas causas.


Tive ímpeto de avançar
sobre o serzinho rabugento
e arrancar-lhe dos dedos
aquele resto sujo de minha
indignidade!



FAZENDA



No fundo do quintal
corria um rego
de águas friinhas.

As galinhas bicavam
pedacinhos de águas
e agradeciam.

Os canarinhos
pintavam de amarelo
os verdes do terreiro,
pareciam árvores
bordadas de estrelas.

Eu tinha alegrias
e medos.

Um dia um beija-flor
bicou-me os dedos:

nasceu-me poesia

desde os cabelos. 

A Deus, meu Pai (para o Roberto Lima)


Quando meu pai
me deu adeus,
eu dei a Deus meu pai.

E confiei no seu destino
superior.

De Deus somos herança
e se Ele não cuidar
do que é seu

não merece nossa confiança. 

Caçada





O momento
feriu a asa de um pássaro
em movimento.

O tempo sempre caça
e alcança tudo

o que passa.

(Nem sangrou
a asa ferida).


A morte não perdoa a vida.

Tarefas (Clênio Pereira)*



Não vim à vida amansar carneiros.
Vim certo, ligeiro, trazer tarefas de mim,
prostrado, confuso ante a efervescência
mística da vida.

Não estou de mãos atadas.
Conservo as boas falas
de todos os velhos amigos,
as lembranças dos doces de leite
e do requeijão polpudo e cheio de sardas.

Dispus, aos companheiros, da minha esperança
e encomendei outra aos novos amigos.

As mulheres que me experimentaram o gosto de mel
não esgotaram por completo
suas reminiscências de fel.

Não vim à vida para compor régias canções,
revolver dogmas da aritmética,
escudar os heróis em sua benignidade de órfãos,
Não quero registrar as guerras,
inventos e desajustes deste tempo.

Não recebi um recado
do motivo de viver.
A cada tarde,
sorvo uma dose de atrevimento e me recordo
de alguns nomes que geografaram minha existência.

Não tenho certeza,
por isso que vim à vida

e luto por ela.


* Poema de autoria do meu irmão Clênio Pereira, falecido em 1984, aos 25 anos de idade.

Travessia (para meu irmão Clênio, poeta, in memória)






Atravessaste a vida
como um menino travesso
atravessa uma avenida
num dia de festa; 

como um sino
atravessa a tarde,

como uma imagem
atravessa a saudade;

atravessaste a vida
como um corisco,
que, entre nuvens,
se arisca dos olhos;

atravessaste o tempo:

como um menino
apascentas um rio
                      sem margens.